A Lava-jato abalava a república

O Brasil vivia um dos momentos mais tensos de sua história recente em janeiro de 2017. A Operação Lava Jato estava no auge, e o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), era o relator de todos os processos relacionados à operação na corte. Isso significava que ele tinha em mãos delações, provas e pedidos de investigação que envolviam dezenas de políticos poderosos.

Nenhum outro ministro do STF carregava tanta informação sensível sozinho. Teori era, na prática, o guardião do que poderia derrubar ou salvar nomes do alto escalão do país. E ele estava prestes a homologar as 77 delações da Odebrecht, o maior acordo de colaboração da história da Justiça brasileira, que atingiria figuras de todos os partidos .

Aviões caírem com figuras centrais em investigações explosivas não é exatamente novidade na história, mas o Brasil nunca tinha vivido algo assim de tão perto.

Um homem careca de óculos, visto por trás, olha para o lado em uma sala escura.
Ministro Teori Zavascki em seção no Supremo Tribunal Federal (STF)

Últimos momentos

Dia 19 de janeiro de 2017, uma quinta-feira abafada e cinzenta. O ministro Teori Zavascki, então com 68 anos, planejava passar o fim de semana em Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro, a convite do amigo e empresário Carlos Alberto Fernandes Filgueiras, dono do Grupo Emiliano. Por volta das 13h, eles embarcaram no Aeroporto de Campo de Marte, em São Paulo, em um bimotor King Air C90GTx, prefixo PR-SOM, de propriedade de Filgueiras. No comando da aeronave estava o piloto Osmar Rodrigues, conhecido como Mazinho, profissional experiente e habituado às difíceis aproximações da região costeira fluminense. Além deles, viajavam a massoterapeuta Maira Lidiane Panas Helatczuk e sua mãe, Maria Ilda Panas.

Um detalhe que surgiria depois nas investigações do CENIPA envolveu a marcação do voo. Na véspera do acidente, quem ligou diretamente para o piloto não foi a secretaria da empresa, como acontecia normalmente, mas o próprio Filgueiras. Segundo depoimentos e registros analisados pelos investigadores, o empresário solicitou pessoalmente a missão de voo e informou a lista de passageiros. Para pessoas próximas ao piloto, o contato direto chamou atenção justamente por fugir da rotina habitual da operação.

O voo seguia para o pequeno aeroporto de Paraty, cercado por morros, mar e condições climáticas frequentemente imprevisíveis. Chovia na região da Costa Verde naquela tarde. Havia nuvens baixas, visibilidade severamente reduzida e um céu fechado que escondia a linha do horizonte e as montanhas.

Pouco antes das 14h, durante a segunda tentativa de aproximação visual para o pouso, o piloto sofreu desorientação espacial devido às condições meteorológicas. O avião perdeu altitude e caiu no mar próximo à Ilha Rasa, a poucos quilômetros da pista. O impacto violento destruiu parte da aeronave. Pescadores e moradores locais correram em barcos em direção ao local após ouvirem o estrondo. Tragicamente, testemunhas relataram ter ouvido pedidos desesperados de socorro vindos de dentro da fuselagem parcialmente submersa — um detalhe angustiante que mais tarde foi confirmado pelas investigações forenses, que constataram que nem todos os ocupantes morreram no impacto inicial, tornando o episódio ainda mais doloroso.

Um avião submerge em ondas tempestuosas sob chuva intensa e céu escuro.

Os olhos de Paraty e os relatos do mar

Moradores e pescadores de Paraty relataram ter ouvido o avião voando ‘estranhamente baixo’ antes do impacto. Um barqueiro, Célio de Araújo, disse à imprensa: ‘A chuva ainda tava fraca. Vento não tinha. Acho que foi problema no motor esquerdo. Deve ter desligado o motor esquerdo e ele ficou só com o motor direito, quando foi bater a asa na água’ — uma impressão que, no entanto, não foi confirmada pelas perícias oficiais, que descartaram falha mecânica.

Outros pescadores afirmaram ter visto uma fumaça branca saindo da aeronave antes da queda, comparando o rastro ao da ‘Esquadrilha da Fumaça’ — detalhe que os investigadores mais tarde atribuíram à vaporização do combustível e ao spray das hélices tocando a água. O que mais chama a atenção, porém, é o relato sobre as tentativas de resgate. Segundo o jornalista André Barcinski, que estava em Paraty no dia, testemunhas afirmaram que uma das passageiras sobreviveu ao impacto inicial e bateu no vidro pedindo socorro por vários minutos. ‘Dava para ver a mão de alguém batendo no vidro. Depois ouvimos os gritos: Pelo amor de Deus, me tira daqui, não aguento mais!’, contou um barqueiro.

Sem as ferramentas adequadas para romper a fuselagem submersa a tempo, os socorristas e voluntários nada puderam fazer. Aos poucos, os apelos cessaram. Ela morreu ali, presa à estrutura do avião, enquanto o socorro oficial tentava, impotente, lidar com os destroços na água.

Uma rua de paralelepípedos escura com reflexos de poças, ladeada por edifícios baixos iluminados.
As ruas vazias de Paraty à noite após a chuva.

Evidências estranhas

O primeiro: os acessos misteriosos ao rastreador do avião.

Segundo levantamento do jornalista Chico Malfitani, com dados do engenheiro Leonardo Manzione, os dados de rastreamento público do avião PR-SOM foram consultados 1.885 vezes no dia 3 de janeiro de 2017, dezesseis dias antes da queda. Esse número representa quase quatro vezes mais do que todas as visualizações anteriores somadas. Quem fez essas consultas? O site, hospedado nos Estados Unidos, permitiria rastrear os IPs de acesso, mas nenhum órgão oficial divulgou ter feito essa solicitação. Alguém, com mais de duas semanas de antecedência, estava de olho naquele avião específico. Por quê?

O segundo: o aviso do filho.

Em maio de 2016, Francisco Zavascki, filho do ministro do STF Teori Zavascki, publicou em seu Facebook um alerta preocupante sobre ameaças que sua família estaria sofrendo. Na ocasião, ele escreveu que “criminosos do pior tipo” movimentavam-se para frear a Operação Lava Jato, da qual seu pai era relator no Supremo. O recado foi direto: “se algo acontecer com alguém da minha família, vocês já sabem onde procurar…! Fica o recado!” Na época, o ministro confirmou a existência das ameaças, minimizando-as ao dizer que não recebia “nada sério”.

A postagem voltou à tona após o acidente. Francisco, chegou a declarar que a família esperava “um milagre”, mas as expectativas não se confirmaram. Mais tarde, ainda durante as investigações, ele declarou: “acho que se justificam as ilações de que também possa ter havido homicídio, já que eram tantas as coincidências e já que o momento era tão propício… Quero acreditar que foi um acidente; eu ficaria mais feliz se descobrisse que foi…”

O terceiro: a sombra sobre quem investigava.

Em maio de 2017, poucos meses após o acidente, o delegado da Polícia Federal Adriano Soares, que chefiava o inquérito sobre a queda, foi assassinado a tiros em Florianópolis. A investigação oficial concluiu que tratou-se de uma fatalidade - uma discussão banal em uma casa noturna que terminou em tiroteio -, mas a morte trágica do homem que guardava os segredos do caso selou o episódio com uma incômoda camada de ceticismo.

Para fechar a teia, há o emaranhado das relações. Carlos Alberto Filgueiras, dono do avião, era sócio do banco BTG Pactual em grandes empreendimentos imobiliários. O ex-presidente desse mesmo banco havia sido preso justamente na Operação Lava Jato, sob a caneta do próprio Teori Zavascki. O ministro que detinha o futuro político do país nas mãos estava de férias no avião do sócio de um de seus investigados.

Adriano Soares em uma pose dramática, com texto do Facebook de Francisco Prehn Zavascki e um gráfico de visualizações ao lado.
Delegado da Polícia Federal Adriano Soares, a tabela dos acessos ao avião e a mensagem do filho de Teori.

Hipóteses científicas

E então voltamos ao chão.

O CENIPA não trabalha com suspense. Trabalha com evidências. Em janeiro de 2018, após um minucioso ano de análises, o órgão publicou o Relatório Final A-013/CENIPA/2017. A conclusão, sustentada por dados de radar, exames de motores, simulações de trajetória e pelas gravações da cabine, foi uma só: desorientação espacial do piloto.

A meteorologia daquele dia era traiçoeira, mas não assassina. Havia chuva, visibilidade restrita a 1.500 metros e o teto das nuvens bem abaixo dos limites regulamentares. O aeroporto de Paraty só opera em condições visuais (VFR). O piloto Osmar Rodrigues, o Mazinho, sabia disso; tinha mais de 7.400 horas de voo e frequentava a região há anos. Mesmo assim, ele insistiu.

Na primeira tentativa de pouso, ele desistiu. Falou no rádio: “Aguardando um pouquinho, até a chuva passar”. Menos de três minutos depois, tentou novamente. Em voo baixo sobre o mar, sem a linha do horizonte visível, seu cérebro entrou em curto-circuito através do que os especialistas chamam de ilusão vestibular e ilusão visual de terreno homogêneo. Em português claro: ele sentia que o avião estava nivelado e alto, mas a aeronave já curvava perigosamente em direção à água. Para piorar, o alarme de proximidade do solo, que ele mesmo havia desligado minutos antes devido aos avisos sonoros repetitivos na aproximação, silenciou o único alerta mecânico que poderia salvá-los.

O impacto destruiu as teorias de sabotagem uma a uma. A perícia provou que os motores funcionavam perfeitamente na hora da queda, a manutenção estava em dia e não havia vestígios de explosivos ou furos de projéteis.

A Polícia Federal percorreu o mesmo caminho técnico e, em janeiro de 2019, arquivou definitivamente o inquérito. Nenhum indiciamento. Nenhum complô. Apenas a fria e incômoda constatação de que, às vezes, a tragédia não precisa de um grande vilão ou de uma conspiração internacional. Às vezes, basta um erro humano, pequeno, confiante e fatal, em uma tarde cinzenta de chuva em Paraty.

Teorias de conspiração (e o peso do contexto)

“Desorientação espacial” é uma explicação técnica, cirúrgica e amparada por dados. Mas ela foi suficiente para convencer o imaginário popular? Para muitos, não. Quando a política e a tragédia se cruzam no Brasil, a ciência frequentemente perde espaço para a suspeita. No caso de Teori Zavascki, as teorias alternativas ganharam força em torno de uma palavra: sabotagem.

A teoria da “morte programada” é a mais persistente. O ministro estava prestes a homologar as delações da empreiteira Odebrecht, apelidadas na época de “a delação do fim do mundo”, que atingiriam em cheio o núcleo do poder executivo e legislativo. Paralisar esse processo, mesmo que por algumas semanas, interessava a muita gente poderosa. Na mente de um público que já testemunhou, ao longo das décadas, figuras políticas proeminentes falecerem em circunstâncias convenientes e acidentes aéreos controversos, Teori não seria o primeiro.

A partir daí, a imaginação preencheu as lacunas. Surgiram hipóteses de adulteração mecânica sutil, sinais falsos de rádio para enganar os instrumentos e até ataques cibernéticos aos sistemas da aeronave, embora críticos apontem que faltou aprofundamento nessas linhas, nenhuma perícia jamais encontrou indícios mínimos que as sustentassem.

E, claro, há o terreno do puro absurdo. Circula até hoje nas redes sociais a narrativa de que o piloto teria sido baleado dentro da cabine e que o executor saltou de paraquedas antes da queda. Apesar de exames necroscópicos e simulações provarem a impossibilidade física e biológica do relato, o boato acumulou mais de 800 mil visualizações no TikTok.

O fenômeno prova que, em casos dessa magnitude, o problema não é a falta de respostas técnicas. O CENIPA e a Polícia Federal entregaram relatórios minuciosos. O verdadeiro mistério, que alimenta o ceticismo até hoje, não está nos parafusos ou nos motores do King Air, mas sim na desconfortável e eterna sincronia entre o destino e o poder.

Um documento confidencial do FBI amassado e carimbado, com seções censuradas e anotações.

O Voo que Não Terminou

Por que a queda de Teori ainda assombra a memória brasileira? Não é só porque ele era importante. É porque o acidente aconteceu no momento exato em que ele mais sabia, e porque os detalhes ao redor da tragédia — os acessos ao site, a angústia do resgate, o delegado morto — nunca pareceram confortáveis ou fáceis de aceitar.

O ser humano tem dificuldade de aceitar o aleatório quando o contexto é explosivo. Preferimos uma conspiração malfeita a um acidente sem sentido. A verdade, nesse caso, pode ser apenas trágica: um voo curto, uma baía revolvida, um minuto de confusão fatal. Mas a ausência de provas cabais, somada aos eventos bizarros que cercaram o caso, mantém uma porta aberta. E por essa porta, entram todas as nossas angústias sobre justiça, poder e o que realmente acontece nos bastidores do país.

 

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