Do telégrafo ao ghostbot de IA: a história da comunicação com os mortos na era digital

Em 1844, Samuel Morse enviou a primeira mensagem telegráfica oficial de Washington a Baltimore. As palavras escolhidas foram estas: “What hath God wrought”, “O que Deus fez”. Pouco tempo depois, no vilarejo de Hydesville, Nova York, duas adolescentes começaram a ouvir batidas nas paredes. As irmãs Fox, Maggie e Kate, não sabiam, mas estavam inaugurando o espiritismo moderno.

A coincidência entre os dois eventos não foi mera cronologia. O código de batidas que as irmãs usavam, uma para “sim”, duas para “não”, ecoava a lógica do recém-criado Código Morse. O invisível já não precisava mais se manifestar em visões de fogo ou em vozes vindas do céu. Agora ele podia ser transmitido.

O século XIX foi uma era de luto. Epidemias de cólera, febre amarela e, depois, os campos de batalha da Guerra Civil Americana, deixaram um rastro de viúvas e órfãos. A morte não era exceção; era vizinha de quarto. Nesse caldo de dor e descoberta, o telégrafo ofereceu algo mais que velocidade: ofereceu uma metáfora. Se mensagens podiam viajar por fios de cobre através de montanhas e oceanos, por que não poderiam atravessar a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos?

Os fantasmas, então, mudaram de endereço. Deixaram de assombrar castelos e passaram a habitar a infraestrutura eletromagnética do mundo.

Quadro de escuridão quase absoluta. Traços extremamente difusos mal revelam contornos no breu, evocando o oculto ou um corte súbito de gravação.

A máquina que ouvia os mortos

A sala está na penumbra. Apenas a chama trêmula de uma vela ilumina o rosto do operador. Sua mão repousa sobre a chave telegráfica. Ao redor, os enlutados esperam em silêncio. De repente, a chave começa a se mover sozinha.

Clique-clique. Pausa. Clique.

O operador anota os pontos e traços em uma tira de papel. Traduzindo o código Morse, a mensagem revela-se: não é de outra cidade. É de um filho morto no front.

Esse cenário, documentado em sessões espíritas da década de 1850, não era ficção. O chamado “Telégrafo Espiritual” tornou-se um fenômeno cultural. Médiuns afirmavam que os espíritos manipulavam as correntes elétricas para enviar avisos, despedidas e consolos. Para a mente vitoriana, educada a ver no “éter” um meio de transmissão invisível, a eletricidade era a ponte natural entre dois mundos.

Mas o mistério não parou no telégrafo. Cada nova invenção, o fonógrafo, o rádio, a televisão, logo se via habitada por vozes que não deveriam estar ali.

Em 1920, Thomas Edison concedeu uma entrevista à revista Scientific American. O inventor do fonógrafo declarou que trabalhava em um aparelho para captar a sobrevivência da personalidade após a morte. Chamou os métodos tradicionais de comunicação com os mortos, mesas girantes, tábuas ouija, de infantis. Queria algo “científico”.

Edison nunca entregou o protótipo. Nenhum esquema foi encontrado em seu espólio. Mas a ideia já estava plantada: se o fonógrafo podia capturar vozes, por que não poderia capturar vozes do além?

Décadas depois, em 1959, o sueco Friedrich Jürgenson gravava o canto de pássaros em um bosque. Ao reproduzir a fita, ouviu o que interpretou como a voz de sua falecida mãe. O Fenômeno da Voz Eletrônica (EVP) estava registrado.

Em 1992, a BBC exibiu Ghostwatch, uma investigação “ao vivo” de uma casa assombrada em Londres. O público não sabia que era ficção. Cerca de um milhão de chamadas telefônicas inundaram a emissora. Dias depois, um jovem cometeu suicídio, o caso foi associado ao trauma do programa. O fantasma não estava na tela. Estava na cabeça de cada espectador.

Hoje, os fantasmas são digitais. A inteligência artificial recria vozes, rostos e personalidades de quem partiu. Os chamados ghostbots são alimentados por e-mails, mensagens, fotos e vídeos. Kanye West presenteou Kim Kardashian com um holograma do pai falecido dela. A tecnologia, agora, não apenas conecta os vivos aos mortos, ela os ressuscita em forma de dados.

Thomas Edison, em preto e branco, mantém a mão em concha na orelha para escutar atentamente a grande corneta acústica de um antigo fonógrafo.
O inventor Thomas Edison ouvindo um fonógrafo.

O eco da ausência

Os relatos, ao longo da história, convergem em um ponto: a experiência de que a tecnologia não é apenas ferramenta, mas canal.

No século XIX, médiuns como Andrew Jackson Davis afirmavam receber mensagens telegráficas de espíritos. As mensagens, segundo os relatos, continham informações que apenas o falecido poderia saber. Havia algo naquelas tiras de papel com pontos e traços aleatórios que parecia, para os enlutados, carregado de intenção.

Jürgenson e seu discípulo, o psicólogo Konstantin Raudive, gravaram milhares de fitas com supostas vozes do além. Raudive, em seus estudos, estabeleceu técnicas padronizadas para a captura de EVPs. As vozes vinham em meio ao ruído branco, sussurrando frases curtas, nomes, respostas a perguntas feitas durante a gravação.

Os críticos, claro, apontaram o óbvio: a maioria das mensagens era fruto de truques mecânicos, criptografia subjetiva ou pareidolia auditiva, a tendência do cérebro humano de encontrar padrões significativos no ruído. O mágico Harry Houdini, ferrenho caçador de fraudes espíritas, dedicou boa parte de sua carreira a desmascarar esses fenômenos.

Mas a experiência subjetiva, para quem a vivencia, é inabalável. A mãe que ouve a voz do filho morto em uma fita cassete não se importa com a explicação científica. O que importa é a sensação de presença. O conforto. A promessa de que o silêncio do túmulo não é absoluto.

A estética do invisível

As “provas” da presença espiritual sempre assumiram a forma do ruído da tecnologia de sua época.

O que todas essas evidências têm em comum? Elas dependem da mediação tecnológica. Sem o aparelho, o fenômeno não existe. O instrumento não apenas registra, ele cria a possibilidade do registro. E o fantasma, em cada era, domina perfeitamente as limitações e a estética do aparato do momento. Se o fantasma se adapta a cada máquina, a ciência, por sua vez, também tem suas próprias ferramentas para desmontar o espetáculo.

Se a nossa personalidade sobrevive, então é estritamente lógico assumir que ela retém memória, razão e outras faculdades... e que ela pode se comunicar com os vivos por meio de instrumentos mecânicos que ainda estamos por descobrir.
— Thomas Edison, em entrevista à Scientific American, 1920.

A física do silêncio: por que a ciência não ouve os mortos

A ciência oferece explicações robustas para os fantasmas na máquina:

Pareidolia e apofenia: o cérebro humano evoluiu para reconhecer padrões, especialmente rostos e vozes, como mecanismo de sobrevivência. Quando exposto a ruído branco, chiado de fita ou estática de rádio, o córtex auditivo e visual “força” a percepção de palavras e formas familiares.

A psicologia do luto e os “vínculos contínuos”: psicólogos modernos reconhecem que o luto não exige o “desapego” total. A teoria dos Continuing Bonds sugere que os enlutados buscam ativamente manter uma conexão com o falecido. A tecnologia oferece um canvas perfeito para a projeção dessa necessidade inabalável.

Efeitos técnicos: exposições duplas, reflexos de lentes, artefatos de gravação e interferências eletromagnéticas explicam a maioria das imagens e sons tidos como paranormais.

Fraude: muitos fenômenos foram fabricados. Mumler foi acusado de fraude em 1869. Edison, segundo seu amigo, nunca construiu o aparelho.

Viés algorítmico e IA: no caso dos ghostbots, a ciência da computação explica que as IAs são treinadas em bilhões de dados humanos. Quando solicitadas a simular um morto, elas não contatam o além; elas acessam o vasto arquivo cultural da humanidade sobre como “fantasmas” deveriam agir, gerando uma simulação estatisticamente convincente, mas artificial.

Arte P&B de alto contraste: silhueta humana encarando uma estrutura retangular cinza, sob uma faixa horizontal distorcida de estática no breu.

O fantasma que a ciência não alcança

Vulto humano pálido emergindo da escuridão, com o corpo coberto por projeções de sombras retorcidas que ocultam suas feições em tom granulado.

Apesar das explicações céticas, as interpretações sobrenaturais permanecem vibrantes:

Transcomunicação Instrumental (ITC): defensores acreditam que os espíritos aprenderam a manipular campos eletromagnéticos e redes de dados. A internet e as redes elétricas são as “estradas” que o mundo espiritual utiliza para interagir com o nosso.

O éter como meio espiritual: seguindo a lógica vitoriana, teorias esotéricas modernas sugerem que a consciência humana, ao deixar o corpo, dissipa-se em um campo de energia sutil. Tecnologias sensíveis a frequências não convencionais atuariam como rádios sintonizados na “estação” dos mortos.

Memória do ambiente: algumas correntes argumentam que o trauma da morte imprime energia nas paredes e nos objetos. As tecnologias modernas, com seus microfones ultra-sensíveis, seriam capazes de “reproduzir” essa gravação ambiental.

Não há evidências científicas que confirmem essas interpretações. Mas isso não diminui sua força cultural nem sua persistência.

Fantasmas do conhecimento: o que ainda nos escapa

Apesar de séculos de investigação, e de todas as explicações que a ciência e a fé oferecem, o fenômeno da comunicação tecnológica com o além insiste em deixar algumas brechas. Não são evidências, mas são zonas de sombra que a razão ainda não iluminou por completo.

A primeira é a intencionalidade do ruído. Os fenômenos EVP, em particular, têm uma característica inquietante: as vozes parecem responder a perguntas feitas em tempo real. Não são mensagens aleatórias gravadas no ar, elas interagem, dialogam, às vezes até ironizam. A ciência explica isso como pareidolia auditiva: o cérebro encontra significado onde há apenas acaso. Mas a pergunta persiste: por que o acaso, tão frequentemente, toma a forma de uma resposta direta e contextualizada? Por que a estática não produz frases em mandarim, ou trechos de bulas de remédio, ou versos de poesia, mas sim nomes, despedidas, respostas? A aleatoriedade, em tese, não deveria ter preferências.

A segunda é a memória do ambiente. Há relatos antigos e modernos de que determinados lugares, casas, quartos, campos de batalha, parecem “armazenar” traumas e reproduzi-los em condições específicas. Como se as paredes tivessem memória. A ciência chama isso de infrassom, eletricidade estática, correntes de ar. Mas há uma consistência nesses relatos que desafia a mera explicação física. O que seria de nós se descobríssemos que o ambiente realmente grava, não em espíritos, mas em alguma propriedade ainda não mapeada da matéria?

A terceira, e talvez a mais perturbadora, é a fronteira entre a simulação e a presença na era da IA. Quando um ghostbot replica a voz, os trejeitos e as memórias de um falecido com precisão assustadora, ele está simulando ou invocando? O algoritmo não tem consciência, mas o usuário, ao interagir com ele, sente uma presença. E essa presença, ainda que artificial, produz efeitos reais: conforto, luto, até dependência emocional. Se a experiência é subjetivamente idêntica à comunicação com um espírito, a distinção entre “real” e “simulado” ainda importa? Ou será que a tecnologia, ao nos dar o fantasma perfeito, tornou irrelevante a pergunta sobre sua origem?

Essas perguntas não invalida o ceticismo nem confirmam o sobrenatural. Elas apenas apontam para um território onde a ciência ainda não tem respostas definitivas, e onde a experiência humana, teimosamente, segue encontrando sentido no ruído.

Talvez o mistério, no fundo, não esteja nos fantasmas. Talvez esteja em nós, e na nossa incapacidade de aceitar que o silêncio possa, de fato, ser apenas silêncio.

O espelho e o ruído

O fascínio pelos fantasmas na máquina persiste não porque somos ingênuos, mas porque a tecnologia, em sua essência, é a promessa de que a distância pode ser vencida. O telégrafo encurtou o espaço; o telefone anulou o tempo; a internet conectou o globo. Era inevitável que o próximo passo lógico da imaginação humana fosse usar essas mesmas ferramentas para anular a única distância que realmente importa: a separação imposta pela morte.

Cada nova invenção, do fio de cobre ao servidor em nuvem, carrega a esperança silenciosa de que o amor e a memória sejam mais fortes que o silêncio do túmulo. O fantasma na máquina é, em última análise, um espelho. Ele reflete nossa recusa em aceitar o fim absoluto e nossa eterna busca por significado em meio ao ruído do universo.

Os fantasmas não mudaram. Nós é que mudamos a forma de os procurar. E, no fim das contas, toda máquina realmente cria seu próprio fantasma, não porque os mortos a habitem, mas porque nós, os vivos, insistimos em soprar nela nossa própria falta. A pergunta, no fundo, nunca foi se os mortos podem falar através das máquinas. A pergunta sempre foi: por que insistimos em ouvi-los?

 

Arquivo de Evidências & Fontes:

Livros e Ensaios Acadêmicos

Relatos e Fontes Primárias

Artigos e Matérias Jornalísticas

  • KASKET, E., POLLAK, S. (2014). “A new mourning: grief in the digital age.” Irish Times
  • MORRIS, M. (2025). “The Afterlife Is Changing Again. This Time, AI Is Part Of The Story.” Morris Futurist
  • KUGLER, L. (2024). “Raising the Dead with AI.” ACM Digital Library
  • ORSI, C. (2015). “Fenômenos de voz eletrônica (EVP): lacunas preenchidas pela imaginação.” Revista Galileu
  • ORSI, C. (2023). “Fantasmas elétricos.” Revista Questão de Ciência
  • MULLIGAN, N. (2024). “Fantasmas digitais: como versões em IA de pessoas mortas podem ser um risco para a saúde mental.”The Conversation

Enciclopédias e Verbetes

Outras Referências