Vítimas do Ódio: A História dos Maiores Serial Killers de LGBTs no Brasil

Vítimas do Ódio: A História dos Maiores Serial Killers de LGBTs no Brasil

Vítimas do ódio: a história dos maiores serial killers de lgbts no brasil

:

:

O mistério que se esconde à vista

O Brasil carrega um paradoxo sombrio e ensurdecedor. De um lado, o país é celebrado globalmente como palco da maior Parada do Orgulho LGBT do mundo, um farol de visibilidade e festa. De outro, de maneira macabra e consistente, mantém o título de país onde mais se mata pessoas LGBTQIA+ no planeta. Essa dualidade terrível não é um acidente estatístico, mas o núcleo de um mistério mais profundo: como a violência em série contra essa população pôde florescer, e por que a identificação e a captura desses predadores demoraram tanto a ocorrer?

A tese que emerge da análise criminológica e histórica é perturbadora: a homofobia estrutural serviu, por décadas, como um escudo de impunidade para assassinos em série. Esse escudo não apenas motivou os agressores, mas, crucialmente, criou um ambiente de negligência e desvalorização no sistema de segurança pública e judicial. Quando a sociedade e suas instituições minimizam o valor de uma vida perdida, o serial killer ganha tempo para operar, transformando vidas em meros incidentes isolados, e não em uma série de crimes interligados.

Historicamente, a catalogação desses crimes foi obscurecida. Por muito tempo, o estigma social da homossexualidade manteve muitas vítimas potenciais e sobreviventes no silêncio, paralisados pelo medo de ter sua orientação sexual exposta publicamente, o chamado outing, caso procurassem a polícia. Esse silêncio forçado, combinado com o descaso policial que frequentemente classificava esses crimes como simples latrocínios (roubos seguidos de morte) ou "brigas passionais" sem motivação clara, assegurou que padrões óbvios de assassinato em série fossem ignorados. O verdadeiro mistério, portanto, não está apenas na identidade dos assassinos, mas na crônica falha da sociedade em reconhecer e proteger essas vítimas. O foco da investigação, portanto, se volta para a criminologia do descaso, um campo onde a vítima, por sua identidade, é invisível para a Justiça.

O palco da tragédia: contexto de violência e inação institucional

A violência contra a comunidade LGBTQIA+ no Brasil não é apenas interindividual; ela é sistêmica. Os números recentes demonstram a urgência e a gravidade da situação. Em 2023, o país registrou 230 mortes violentas de pessoas LGBTI+. Olhando para a trajetória da violência, o aumento é alarmante: entre 2021 e 2022, o número de mortes violentas subiu 33,3%. Em centros urbanos como São Paulo, a capital do país com maior concentração de pessoas da comunidade, a violência cresceu de forma vertiginosa, atingindo um aumento de 970% em um período de apenas oito anos.

A concentração geográfica da carnificina

As estatísticas mostram que essa violência está concentrada nas regiões mais populosas. O Nordeste e o Sudeste, juntos, somaram 116 e 103 mortes violentas, respectivamente, em um período de monitoramento. Os estados de São Paulo (42 mortes), Bahia (30), Minas Gerais (27) e Rio de Janeiro (26) lideraram o ranking nacional. Essa distribuição geográfica sugere que a violência é endêmica e não se restringe a bolsões isolados, mas floresce onde há maior visibilidade e, consequentemente, maior reação homofóbica.

O vácuo legal e a reclassificação criminológica

Durante décadas, a ausência de uma legislação federal específica que criminalizasse a homofobia de forma clara criou um vácuo legal que contribuiu para a sensação de impunidade. Essa inércia legislativa, que se arrastou por anos , permitiu que crimes de ódio fossem frequentemente desqualificados. O ponto de virada institucional ocorreu em 2019, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) interveio de forma decisiva. O tribunal equiparou a LGBTfobia ao crime de racismo, preenchendo a lacuna deixada pelo Congresso Nacional. Essa decisão é de importância capital, pois, a partir dela, os crimes cometidos contra homossexuais e outras pessoas LGBTQIA+ poderiam ser investigados e punidos com o reconhecimento explícito do motivo de ódio como agravante. A implicação da criminologia crítica é que a LGBTfobia se manifesta em dimensões interindividual, institucional, estrutural e simbólica. Os serial killers, ao selecionarem vítimas dentro da comunidade, não estão apenas manifestando ódio individual; eles estão se beneficiando da dimensão estrutural, operando sob a presunção de que o sistema de justiça não responderá com vigor. Consequentemente, a verdadeira contagem de vítimas de assassinos em série motivados por ódio é, provavelmente, um mistério estatístico. Muitos casos de serial killers que atuaram antes de 2019 podem ter sido erroneamente classificados como roubos ou homicídios passionais, obscurecendo a real dimensão da tragédia serial.

Homem branco de óculos ao fundo de um armário aberto, representando o medo de se assumir da comunidade LGBTIAPN+

A gênese sombria: Fortunato Botton Neto e a época de "Pilo" (1986–1989)

Para entender a impunidade histórica, é necessário recuar no tempo até os anos 1980, quando Fortunato Botton Neto, conhecido como "Pilo", aterrorizou São Paulo. Nascido em 1963, Pilo era um garoto de programa que frequentava a região da Avenida Paulista, perto do Museu de Arte de São Paulo (MASP). O período (1986–1989) coincidia com o auge do pânico em torno da AIDS, um momento de profundo estigma e medo que envolvia a comunidade gay.

O modus operandi no nicho do sigilo

O perfil das vítimas de Pilo era bem definido: homens gays mais velhos, geralmente ricos, com idades entre 30 e 50 anos, que buscavam encontros discretos. Os assassinatos invariavelmente ocorriam nos apartamentos das vítimas. Pilo, que usava crack e tinha dificuldades financeiras, inicialmente procurava roubar seus clientes.

No entanto, a motivação era híbrida e complexa. Fortunato confessou ter assassinado sete homens. Ele alegava que a maioria dos crimes era catalisada pelo pagamento insuficiente ou por comentários depreciativos por parte das vítimas. Por exemplo, ele teria matado um psiquiatra após este reclamar que Pilo fumava demais. O método era de extrema brutalidade, utilizando repetidas facadas, muitas vezes desferidas mesmo após a morte da vítima. Essa violência excessiva sugere que, embora o roubo fosse o gatilho, a descarga da fúria era impulsionada por um ódio profundo e ressentimento, manifestando-se contra aqueles que, segundo sua percepção, o desvalorizavam. Um psiquiatra que o examinou, Guido Palomba, concluiu que Pilo era um sádico sexual com um temperamento violento.

O escudo do silêncio e a pena ínfima

O aspecto mais revelador do caso Pilo é como ele conseguiu operar por três anos sem ser detectado. A série de assassinatos contra homossexuais só foi minimamente reconhecida após sua prisão por extorsão, e não por uma investigação eficiente de homicídio. O fator decisivo para a impunidade foi o sigilo que envolvia as vítimas. Muitos homens gays ricos, por medo de ter sua sexualidade exposta à família ou no trabalho, não denunciavam roubos ou agressões menores. O armário funcionou, inadvertidamente, como uma proteção para o assassino, impedindo que a polícia ligasse os crimes e percebesse o padrão.

Quando Fortunato Botton Neto foi finalmente levado à justiça, o desfecho refletiu a desvalorização judicial da época. Embora ele tenha confessado sete assassinatos e a polícia suspeitasse de até 13, ele foi condenado por apenas três homicídios e sentenciado a uma pena irrisória de 8 anos de prisão. A brandura da pena daquela época para crimes tão bárbaros é um testemunho da baixa prioridade e do desinteresse do sistema judicial em punir severamente a violência contra a comunidade gay. Fortunato Botton Neto faleceu na prisão em 1997, aos 33 anos, devido à broncopneumonia resultante da AIDS.

A sombra fardada: o terror do maníaco do arco-íris (2007–2008)

Duas décadas após os crimes de Pilo, a cena de caça mudou, mas a vulnerabilidade das vítimas permaneceu. Entre julho de 2007 e agosto de 2008, a Grande São Paulo foi palco de uma nova e mais sombria onda de assassinatos, concentrada no Parque dos Paturis, em Carapicuíba, e expandindo-se para Osasco. O assassino foi apelidado pela imprensa de Maníaco do Arco-Íris, uma referência irônica e trágica à comunidade LGBT que frequentava a área.

O modus operandi da execução

As vítimas do Maníaco do Arco-Íris tinham um perfil distinto do de Pilo: eram homens e travestis, trabalhadores da periferia, incluindo funcionários públicos e caminhoneiros, que utilizavam o Parque dos Paturis como ponto de encontro.

O modus operandi dos crimes sugeria uma frieza e precisão quase militares. Pelo menos 13 vítimas foram mortas na região do parque. A grande maioria (12 delas) foi morta com tiros fatais na cabeça, à queima-roupa, indicando uma execução sumária. Os corpos eram frequentemente encontrados de bruços, semidespidos, com as calças abaixadas ou enroladas nos joelhos. Embora inicialmente isso pudesse sugerir relação sexual, a polícia investigou a possibilidade de ser um ritual de humilhação pós-morte, reforçando a tese do crime de ódio com motivação ideológica. O delegado responsável pelas investigações na época, Paulo Fernando Fortunato, chegou a afirmar que o assassino agia por ódio, acreditando estar realizando um "trabalho de faxina" social.

O mistério da cumplicidade institucional

O caso se aprofundou no mistério quando o principal suspeito veio à tona: Jairo Francisco Franco, um sargento aposentado da Polícia Militar. A polícia estadual investigou ativamente a hipótese de o serial killer ser um oficial da corporação. Franco já estava sob investigação por suspeita de participação no Massacre do Carandiru e de pertencer a um grupo de extermínio conhecido como "Eu Sou a Morte". O perfil do suspeito, com histórico de violência institucional e possível motivação ideológica, colocou o caso sob o holofote de uma possível cumplicidade estatal.

O que impediu a resolução definitiva do caso Arco-Íris foi um conjunto de falhas investigativas gritantes. Apesar de terem sido encontradas evidências biológicas, como esperma nos corpos das vítimas, nenhum teste de DNA foi realizado. Da mesma forma, os estudos de balística, que seriam cruciais para provar que a mesma arma foi usada nos 13 assassinatos, foram negligenciados. Essa ausência de procedimentos forenses básicos, num caso de tamanha repercussão, levanta a suspeita de que a inação poderia ter sido uma obstrução velada, visando proteger um membro de forças de segurança pública.

O Maníaco do Arco-Íris se tornou o símbolo do mistério impulsionado pela impunidade institucional. Franco chegou a ter a prisão decretada em dezembro de 2008 , mas após um período de prisão temporária, ele foi solto, e o caso, que chocou a comunidade, permaneceu em um limbo judicial. O fracasso forense, unido à suspeita sobre o passado do principal investigado, mantém esse caso como um dos maiores exemplos de como a desvalorização das vítimas garante a invisibilidade do predador.

O caçador digital: José Tiago Soroka e a facilidade dos aplicativos (2018–2021)

A mais recente e midiática manifestação da violência serial contra homossexuais no Brasil ocorreu no contexto da era digital. O caso de José Tiago Correia Soroka, que atuou em Curitiba (PR) e Santa Catarina (SC), ilustra a migração do modus operandi do serial killer do "ponto de encontro" físico (como o Parque dos Paturis) para as plataformas virtuais.

A nova vulnerabilidade do encontro digital

Soroka explorou a confiança inerente aos aplicativos de relacionamento (como Grindr e Tinder) para se aproximar de suas vítimas. Seu padrão era específico: ele mirava em homens homossexuais que moravam sozinhos. O criminoso simulava interesse em estabelecer uma relação afetiva e, após marcar um encontro nas casas das vítimas, cometia os crimes. O período de ação de Soroka (2018-2021) abrangeu crimes contra pelo menos quatro vítimas, resultando em três assassinatos/latrocínios confirmados. As vítimas identificadas incluem Robson Paim, professor de SC, David Levisio, enfermeiro no PR, e Marcos da Fonseca, estudante de medicina.

O método preferido de Soroka era a asfixia ou estrangulamento. As investigações indicaram que o principal objetivo era o roubo, buscando obter dinheiro para se manter por cerca de uma semana, e ele reincidia quando os recursos acabavam, tendo confessado o desejo de matar "pelo menos uma pessoa por semana".

O debate crucial: latrocínio pela "Facilidade”

O caso Soroka reacendeu o debate sobre a motivação. O próprio assassino alegou em depoimento que escolhia gays por serem "alvos fáceis". Essa alegação levanta uma questão central: se o objetivo final é financeiro (latrocínio), o crime é "apenas" roubo, ou a escolha da vítima, baseada na percepção de vulnerabilidade e baixo risco, configura um crime de ódio instrumental?

Tanto a polícia quanto o Ministério Público do Paraná (MPPR) rejeitaram a tese do mero latrocínio. Eles argumentaram que a repulsa de Soroka contra gays, conforme indicado em seu depoimento, e a escolha sistemática e exclusiva de vítimas homossexuais demonstraram que o preconceito era um fator instrumental. A percepção de "alvo fácil" é, na verdade, um produto direto da homofobia estrutural histórica (a mesma que deu impunidade a Pilo e ao Arco-Íris). Soroka agiu sob a presunção de que o sistema de justiça daria pouca atenção a essas mortes, garantindo-lhe baixo risco operacional.

A rara justiça na era pós-STF

O desfecho do caso Soroka contrasta marcadamente com o de Pilo e do Maníaco do Arco-Íris, demonstrando o impacto da mudança legal e da pressão midiática (o caso foi tema do programa Linha Direta).

José Tiago Correia Soroka foi condenado em primeira instância a uma pesada pena de 104 anos, 6 meses e 4 dias de reclusão. A importância histórica dessa condenação reside no fato de o julgamento ter reconhecido explicitamente os crimes de roubo, latrocínio e, crucialmente, homofobia. A condenação célere e severa, com o reconhecimento legal do agravo do ódio, sinaliza uma resposta mais rígida do sistema de justiça, impulsionada pela criminalização da LGBTfobia pelo STF e pela maior visibilidade social dos casos.

Anatomia de um crime de ódio: roubo, prazer ou ideologia?

A história dos serial killers de homossexuais no Brasil revela que o dolo (motivação criminosa) raramente é singular. Nesses casos, o ódio não é apenas a fúria irracional; ele é, muitas vezes, instrumental.

No caso de Pilo, o sadismo sexual e o ressentimento pessoal (motivados por drogas e traumas) foram direcionados contra clientes ricos que ele sentia desprezá-lo. No caso do Maníaco do Arco-Íris, a motivação parece ter sido puramente ideológica, de "faxina social", possivelmente ligada a grupos de extermínio. Já no caso Soroka, o ganho financeiro era o fim imediato, mas a escolha exclusiva do grupo (a homofobia) era o meio que garantia o "baixo risco" da operação.

A criminologia crítica argumenta que, se a escolha da vítima é determinada pela percepção de vulnerabilidade social—o que é a própria definição de homofobia estrutural —o preconceito é um fator agravante. O assassino se aproveita da inércia do Estado para caçar. A constante em todos os três casos, apesar das diferentes épocas e modi operandi (presencial, execução, digital), é a percepção do predador de que esses crimes seriam ignorados ou mal investigados, o que se confirmou por décadas de negligência.

O legado mais duradouro e perturbador é o mistério da impunidade. Enquanto Soroka foi condenado exemplarmente, a falta de fechamento no caso do Maníaco do Arco-Íris, onde o fracasso forense se confunde com a suspeita de cumplicidade institucional, permanece uma ferida aberta. A memória destas vítimas e a busca por evidências científicas e históricas tornam-se, assim, um ato de resistência contra o esquecimento.

serial lgbt 06 1
serial lgbt 07 2

O painel da tragédia nacional

Os três casos emblemáticos de serial killers que tiveram como alvo principal a população homossexual no Brasil demonstram a evolução da violência e a complexidade da resposta judicial ao longo das últimas décadas.

serial lgbt 08 3

A história continua a ser escrita com sangue

A investigação sobre os serial killers de homossexuais no Brasil revela um padrão de adaptação macabra. O predador evoluiu: da caça oportunista na rua sob o manto do sigilo nos anos 80 (Pilo), passando pela execução ideológica e possivelmente institucionalmente acobertada no final dos anos 2000 (Maníaco do Arco-Íris), até a exploração da confiança digital na última década (Soroka). Em todas as eras, no entanto, o fator que garantiu o prolongamento de suas ações foi a desproteção estrutural das vítimas.

O mistério não reside na mente do assassino, mas no coração de um sistema que falhou repetidamente em proteger as minorias. A percepção de que esses crimes eram de baixo risco, manifestada na confissão de Soroka de que escolhia alvos fáceis , é a prova de que a violência estrutural forneceu a licença para matar. A condenação pesada de Soroka, impulsionada pelo novo enquadramento legal, é um avanço, mas não apaga as décadas de impunidade que permitiram o surgimento de assassinos como Pilo ou a não resolução definitiva de casos como o do Maníaco do Arco-Íris.

A história dos serial killers de homossexuais no Brasil é a história da negligência institucional. O verdadeiro final feliz não será apenas a captura e condenação de um indivíduo, mas o desvendamento do mistério da inação. A memória das vítimas exige que a vigilância seja mantida e que o preconceito, que historicamente funcionou como um escudo para os predadores, seja finalmente desmantelado.

Fontes:

Jornais e Portais de Notícias

Agência Brasil. (2022, maio). Número de mortes violentas de pessoas LGBTI+ subiu 33,3% em um ano.

Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2022-05/numero-de-mortes-violentas-de-pessoas-lgbti-subiu-333-em-um-ano

Agência Brasil. (2024, maio). Brasil teve 230 mortes de pessoa LGBTI+ em 2023.

Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-05/brasil-teve-230-mortes-de-pessoa-lgbti-em-2023

Agência Brasil. (2024, janeiro). Violent deaths of LGBTQIA+ individuals reach 257 in 2023.

Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/en/direitos-humanos/noticia/2024-01/violent-deaths-lgbtqia-individuals-reach-257-2023

Campo Grande News. (s.d.). Assassino diz que gays eram “alvos fáceis”, mas polícia vê ódio em crimes.

Disponível em: https://www.campograndenews.com.br/brasil/cidades/assassino-diz-que-gays-eram-alvos-faceis-mas-policia-ve-odio-em-crimes

Campo Grande News. (s.d.). “Não foi homofobia”: assassino de gays dizia ser “bi” para atrair vítimas.

Disponível em: https://www.campograndenews.com.br/brasil/cidades/nao-foi-homofobia-assassino-de-gays-dizia-ser-bi-para-atrair-vitimas

CNN Brasil. (s.d.). Veja quem são os maiores serial killers do Brasil.

Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/veja-quem-sao-os-maiores-serial-killers-do-brasil

CNN Brasil. (s.d.). LGBTFobia: Brasil é o país que mais mata quem apenas quer ter o direito de ser quem é.

Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/lgbtfobia-brasil-e-o-pais-que-mais-mata-quem-apenas-quer-ter-o-direito-de-ser-quem-e

Estadão. (s.d.). De Pedrinho Matador a Maníaco do Parque: Quem são os serial killers brasileiros.

Disponível em: https://www.estadao.com.br/brasil/de-pedrinho-matador-chico-picadinho-maniaco-do-parque-relembre-outros-serial-killers-brasileiros

Folha de S.Paulo. (2008, 10 de dezembro). Justiça decreta prisão de ex-PM suspeito de ser o "maníaco do arco-íris".

Rogério Pagnan e André Caramante.

Disponível em: https://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2008/12/477803-justica-decreta-prisao-de-ex-pm-suspeito-de-ser-o-maniaco-do-arco-iris.shtml

Folha de S.Paulo. (2024, julho). Assassinatos de pessoas LGBTQIA+ aumentaram 42% no Brasil em 2023.

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/07/assassinatos-de-pessoas-lgbtqia-aumentaram-42-no-brasil-em-2023.shtml

Folha de S.Paulo. (2025, janeiro). Brasil é o país que mais mata trans pelo 16º ano, com 105 homicídios em 2024.

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2025/01/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-trans-pelo-16o-ano-com-105-homicidios-em-2024.shtml

G1 BA / Grupo Gay da Bahia. (2025, 18 de janeiro). Cresce número de mortes violentas de pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil, aponta levantamento.

Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2025/01/18/mortes-lgbtqiapn-brasil.ghtml

G1 PR. (2022, 14 de julho). Serial killer de homossexuais é condenado a 104 anos de prisão por latrocínio e extorsão.

Disponível em: https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2022/07/14/serial-killer-de-homossexuais-e-condenado-a-104-anos-de-prisao-por-latrocinio-e-extorsao.ghtml

Jovem Pan. (Barros, L., 2021, 9 de maio). Polícia investiga mortes de homens gays asfixiados no PR.

Disponível em: https://jovempan.com.br/noticias/brasil/policia-investiga-mortes-de-homens-gays-asfixiados-no-pr-ong-acredita-que-casos-podem-estar-ligados.html

NSC Total. (s.d.). Como serial killer de homossexuais virou tema do Linha Direta.

Disponível em: https://www.nsctotal.com.br/noticias/serial-killer-homossexuais-linha-direta

O Globo. (2024, 5 de julho). Laudos mostram que "Maníaco do Parque" queria ser uma mulher.

Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2024/07/05/laudos-mostram-que-maniaco-do-parque-queria-ser-uma-mulher-revela-livro.ghtml

Rádio Senado. (2018, 16 de maio). Brasil é o país onde mais se assassina homossexuais no mundo.

Disponível em: https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2018/05/16/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-homossexuais-no-mundo


Órgãos Públicos e Entidades Oficiais

Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). (2023). Dossiê indica 273 mortes de LGBTIA+ no Brasil em 2022.

Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2023/maio/dossie-apresentado-ao-mdhc-indica-273-mortes-de-lgbtia-no-brasil-em-2022

Ministério Público do Paraná (MPPR). (s.d.). Autor de crimes em série contra gays é condenado a 104 anos de prisão.

Disponível em: https://mppr.mp.br/Noticia/Autor-de-crimes-em-serie-contra-gays-e-condenado-104-anos-de-prisao


Artigos, Organizações e Estudos

CSP-Conlutas. (2025). Atlas da Violência 2025 comprova que Brasil é pior para mulheres, negros e LGBT+.

Disponível em: https://cspconlutas.org.br/n/19384/atlas-da-violencia-2025-comprova-que-brasil-e-pior-para-mulheres-negros-e-lgbt

Gênero e Número. (Silva, V. R., s.d.). Escassez e falta de uniformidade entre os dados.

Disponível em: https://www.generonumero.media/reportagens/crime-de-odio/

IBCCRIM. (s.d.). Crimes de ódio, racismo, misoginia e LGBTQIAPN+fobia: uma análise crítica.

Disponível em: https://publicacoes.ibccrim.org.br/index.php/RBCCRIM/article/view/745

Mackenzie. (s.d.). Criminalização da LGBT+fobia: Uma análise do julgamento da ADO nº 26.

Disponível em: https://dspace.mackenzie.br/bitstreams/675ca817-b703-4db5-8e05-08074e5e81c/download

PSTU. (s.d.). Autoridades mostram irresponsabilidade e descaso com assassinatos de gays.

Disponível em: https://www.pstu.org.br/autoridades-mostram-irresponsabilidade-e-descaso-com-assassinatos-de-gays


Fontes Internacionais e Wikipedia

Hardwick, C. (2021, abril). Queer Crime: How Homophobia Helped 4 Gay Serial Killers Continue to Kill. InMagazine.

Disponível em: https://inmagazine.ca/2021/04/queer-crime-how-homophobia-helped-4-gay-serial-killers-continue-to-kill/

Phillips, T. (2008, 14 de dezembro). The 'Rainbow killer' stalks Brazilian gays. The Guardian.

Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2008/dec/14/brazil-rainbow-serial-killer

The Guardian. (2008, 14 de dezembro). São Paulo is the annual stage for the largest gay pride march on Earth.

Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2008/dec/14/brazil-rainbow-serial-killer

Wikipedia (EN). (s.d.). Fortunato Botton Neto.

Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Fortunato_Botton_Neto

Wikipedia (EN). (s.d.). Paturis Park murders.

Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Paturis_Park_murders

Wikipedia (EN). (s.d.). Francisco das Chagas Rodrigues de Brito.

Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Francisco_das_Chagas_Rodrigues_de_Brito

Wikipedia (PT). (s.d.). Assassinos em série brasileiros.

Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Assassinos_em_série_brasileiros

Wikipedia (PT). (s.d.). Maníaco do Trianon.

Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Maníaco_do_Trianon

Wikipedia (EN). (2025, 17 de janeiro). Fortunato Botton Neto: Confession and Sentence.

Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Fortunato_Botton_Neto


Vídeos e Multimídia

YouTube. (s.d.). (ADO) 26 - ADPF 4733 (Omissão do Congresso Nacional em criminalizar homofobia) - Julgamento STF

Disponível em: https://youtube.com/playlist?list=PLMvVRaolzL1e2XnG1gTwe4yEQJ8ZLPjYM&si=De18zhYmpQbcBwWG

YouTube. (s.d.). Caso Serial Killer Soroka Ou Coringa - Especial Investigação Criminal

Disponível em: https://youtu.be/OHAA2IJvnV4

YouTube. (s.d.). Coringa Brasileiro, O Serial Killer Dos Gays Que Atavaca Pelo App De Namoro - Soroka

Disponível em: https://youtu.be/VZimHD76rRY

YouTube. (s.d.). José Thiago Correia Soroca condenado a 104 anos.

Disponível em: https://youtu.be/cO6iJxIa-xQ

YouTube. (s.d.). José Thiago Soroca: Investigação sobre terça-feira.

Disponível em: https://youtu.be/xRXEHAVScBk

YouTube. (s.d.). Maníaco do Arco-íris - Podcast Café com crime

Disponível em: https://youtu.be/rNCU6RKUABc

YouTube. (s.d.). Maníaco Do Trianon | Ep 07 - Temp 02 | Perícia Lab (Completo)

Disponível em: https://youtu.be/aTkQWswLdVM

YouTube. (s.d.). Maníaco Do Trianon - O Dahmer Brasileiro Que Matou 13 Gays - Crime S/A

Disponível em: https://youtu.be/Nbnbs2nqYc0


Sites e Bases Diversas

Onde Fui Roubado. (s.d.). Preso homem acusado de latrocínio a homossexuais.

Disponível em: https://www.ondefuiroubado.com.br/preso-homem-acusado-latrocinio-homossexuais/

As irmãs possuídas: o delírio compartilhado pro trás do parricídio

As irmãs possuídas: o delírio compartilhado pro trás do parricídio

As irmãs possuídas: o delírio compartilhado pro trás do parricídio

:

:

O exorcismo de carne: o dia em que o delírio transbordou

Na madrugada de 27 de março de 2000, o bairro de Saavedra, em Buenos Aires, não apenas adormeceu — foi amaldiçoado. O silêncio noturno, denso e habitual, foi rasgado por vozes que não deveriam existir neste mundo. Por mais de doze horas, os vizinhos ouviram algo que não eram gritos, nem preces, mas um coro de loucura — uma cacofonia de rezas entrecortadas por risos agudos, soluços guturais e urros que pareciam vir de dentro da terra. Era como se o apartamento no pequeno prédio tivesse sido aberto para uma dimensão onde Deus não responde… e o demônio sussurra. O que os vizinhos, encurralados em seus lares, testemunharam não foi um ritual, mas o lento rasgar do véu da realidade.

Casa da família Vazquez no bairro Saavedra, em Buenos Aires.

Casa da família Vazquez no bairro de Saavedra, em Buenos Aires.

Quando os primeiros policiais, alertados por ligações trêmulas, forçaram a entrada, o cheiro foi a primeira sentença de horror. Um denso odor metálico de sangue fresco, misturado com o ranço de velas derretidas e algo indefinivelmente antigo, os engoliu. A visão que se descortinou não era um crime, era um altar de pesadelo.

A sala era uma tela pintada com grossas pinceladas de vermelho escuro, um charco colossal e pegajoso que refletia a luz fraca de velas negras. O chão estava afundado em sangue. Um lago vermelho, espesso, que cobria o piso como se o próprio cômodo estivesse sangrando. Uma Bíblia jazia rasgada ao meio, suas páginas espalhadas entre cacos de vidro — como se tivesse sido quebrada pela força de algo que não era humano. No epicentro do massacre, aninhado ao pé da escada como uma oferenda, jazia o corpo nu e dilacerado de um homem. A carnificina era tão extensa que a forma humana quase se perdia.

Mas o verdadeiro horror não estava apenas no cadáver. Num dos cantos da sala, estava uma jovem nua, coberta de sangue, segurando fortemente uma faca de serra, pesada e escura, que ainda gotejava. Ela não parecia uma mulher, mas uma marionete de carne movida por uma força arcaica. Seus olhos, vazios e ao mesmo tempo terrivelmente focados, fitavam os policiais sem vê-los. Ela sussurrava, não para os vivos, mas para as sombras: "Temos que descascar o boneco... para vê-lo novamente..." A frase, ecoando naquele abatedouro doméstico, era a chave para uma loucura inatingível. Era Silvina, de 21 anos.

Em outro extremo, caída no chão, estava Gabriela, a irmã mais velha. Também nua, gemia com cortes profundos no rosto e na cabeça, os olhos arregalados em um terror mudo. Silvina já havia começado a “descascar” a irmã, convencida de que o demônio, expulso do corpo do homem, havia se transferido para ela. Prestes a abrir-lhe o crânio com a mesma faca, Silvina foi imobilizada pelos policiais. Gabriela sobreviveu — mas seus olhos nunca mais voltaram a ser os mesmos.

O cenário era uma blasfêmia meticulosa. Velas negras consumiam-se ao lado de livros de magia negra com páginas manchadas. A Bíblia, aberta no Salmo 23, estava profanada por respingos vermelhos. Fragmentos de vidro, como dentes quebrados de um espelho, cobriam o chão. E na carne fria do corpo, esculpidos com precisão pela lâmina que o devastou, havia um círculo e um triângulo — símbolos de um ritual sem nome.

A perícia revelou que o homem era Juan Carlos, de 50 anos, pai das jovens. Seu corpo apresentava entre 130 e 150 cortes e perfurações, alguns superficiais, outros letais, nenhum ferimento de defesa. Mas o detalhe mais horrendo não estava apenas nas feridas ou nos símbolos. Sua máscara facial havia sido quase inteiramente removida. Ossos marcados por dentes humanos denunciavam o inimaginável: o rosto fora arrancado a mordidas.

Não houve motivo. Não houve plano. Houve apenas uma mente que se rompeu — e, nesse rompimento, abriu-se uma fenda para algo mais antigo, mais obscuro, mais paciente do que qualquer loucura humana.
O apartamento não foi apenas o cenário de um crime. Foi um portal.
E ninguém sabe se ele foi fechado.

A origem do delírio: uma família em queda livre

Para compreender a tragédia que culminou no parricídio de Saavedra, é necessário recuar no tempo e reconstruir o histórico familiar das irmãs Vázquez, que não foi um crime isolado, mas o ápice de uma lenta e dolorosa deterioração. A felicidade da família, composta por Juan Carlos, um ferreiro de 50 anos, sua esposa Aurora e as duas filhas, Gabriela e Silvina, foi brutalmente interrompida em 1993, quando Aurora morreu de diabetes. A perda da matriarca foi um evento devastador, que rompeu o principal pilar de estabilidade da família.

Gabriela e Silvina Vázquez foram apelidadas de "Irmãs Satânicas" pelos jornais. Elas esfaquearam o pai, Juan Carlos, até a morte 100 vezes em um apartamento no bairro de Saavedra, em Buenos Aires, há 23 anos.

Gabriela e Silvina Vázquez foram apelidadas de "Irmãs Satânicas" pelos jornais. Essa é uma das poucas imagens disponíveis de toda a família, antes do falecimento da mãe, Aurora.

Em uma tentativa de superar o luto e começar uma nova vida, Juan Carlos e as filhas se mudaram para uma nova casa em 1997, no bairro de Saavedra. No entanto, o novo lar, que deveria ser um refúgio, tornou-se o epicentro de uma crise de saúde mental crescente. Aos 16 anos, a filha mais nova, Silvina, começou a manifestar sintomas claros de esquizofrenia, uma doença mental grave caracterizada por alucinações e delírios. Ela afirmava ouvir vozes, ver espíritos e sentir o "cheiro de morto" na nova casa.  

Gradualmente, o pai e a irmã, Gabriela, foram sendo arrastados para o mundo delirante de Silvina. A família, antes unida, se isolou socialmente, fechando-se em sua própria realidade paralela. O medo dos supostos "espíritos" que os perseguiam se tornou tão intenso que os três passaram a dormir juntos em colchões no chão da mesma sala, uma medida extrema de proteção contra uma ameaça que só eles podiam perceber. O delírio compartilhado os levou a quebrar todos os espelhos do apartamento, pois acreditavam ter visto a "cara do diabo" refletida neles. A dinâmica familiar, que já era frágil pelo luto, tornou-se um raro e trágico exemplo de folie à trois, uma síndrome psiquiátrica em que um delírio é compartilhado entre três pessoas intimamente ligadas. O pai, Juan Carlos, não foi apenas uma vítima passiva; ele era um participante ativo no delírio, o que torna sua morte ainda mais profunda e desoladora.

irmas 04 1 4

O delírio em ação: o ritual de 'cura' que se tornou um assassinato

A narrativa do caso, popularizada pela mídia, focou em um "crime satânico" , mas os fatos revelam uma história muito mais complexa e humana, onde a "satanidade" era, na verdade, uma interpretação distorcida de uma doença mental. Desesperados e sem um tratamento adequado para a esquizofrenia de Silvina, a família buscou ajuda espiritual em uma igreja, que os orientou a procurar um "centro de transmutação". O objetivo era realizar um "ritual de purificação" para expulsar o mal que, segundo eles, estava dentro da casa.  

O ritual, que a família realizou por 20 dias, incluía banhos diários em um "elixir" e o consumo de um "líquido purificador". Na noite da tragédia, o que os vizinhos ouviam não era uma celebração, mas o ápice de uma tentativa desesperada de exorcismo. Juan Carlos, o pai, começou a passar mal, vomitando sangue e se sentindo fraco, uma reação que, para qualquer pessoa fora do delírio, seria um sinal de envenenamento. No entanto, Silvina, em seu estado alterado, interpretou os sintomas como a prova de que o demônio estava se manifestando e lutando para sair de dentro de seu pai. Para a mente doente da jovem, o vômito e o sofrimento do pai eram o sinal de que a "purificação" estava funcionando e precisava ser concluída.  

Ritual de cura

A tragédia das irmãs Vázquez é um doloroso exemplo de como a confusão entre o espiritual e o patológico pode ter consequências fatais. O que a sociedade viu como um crime de ódio satânico foi, na verdade, uma manifestação de um delírio, onde a violência se tornou a única forma de "cura" em uma lógica interna completamente distorcida. A tentativa de "salvar" o pai resultou em sua morte, uma reversão perversa de papéis que transforma a história de maldade em uma história de profunda fragilidade mental. O horror não foi orquestrado por uma entidade maligna, mas por uma mente humana corroída por uma doença não tratada e isolada em sua própria realidade.

irmas 06 5

O veredito: o julgamento da mente, não do crime

Após o horror do crime, a justiça argentina enfrentou o complexo desafio de julgar duas mulheres que, aos olhos da lei, haviam cometido um parricídio, mas cuja sanidade mental era questionável. O desfecho do processo judicial se baseou nos laudos psiquiátricos, que foram a peça-chave para determinar a responsabilidade penal das irmãs. A justiça declarou ambas as irmãs "inimputáveis" , um termo jurídico que, para o público leigo, significa que elas, devido a uma doença mental grave, não tinham capacidade de entender a natureza e a criminalidade de seus atos no momento do crime.  

Os peritos psiquiátricos diagnosticaram Silvina, a principal agressora, com esquizofrenia, uma condição crônica que distorceu sua percepção da realidade. Já Gabriela, a irmã mais velha, foi diagnosticada com uma "síndrome pseudoesquizoide" e sua participação no crime foi vista como resultado de uma "influência recíproca", onde o delírio de Silvina se tornou tão poderoso que a arrastou para a sua realidade paralela. Silvina foi considerada a autora principal dos golpes, enquanto Gabriela foi considerada uma co-participante que, em seu estado de paralisia e medo, não conseguiu intervir.  

Essa distinção nos diagnósticos e na responsabilidade de cada uma foi refletida no desfecho judicial. Silvina foi internada em um hospital psiquiátrico por três anos, recebendo tratamento para sua condição , enquanto Gabriela foi liberada do hospital apenas seis meses após o crime. A diferença nas penas não foi uma falha da justiça, mas um reconhecimento de que, embora ambas estivessem imersas no delírio, a mente doente principal pertencia a Silvina, e Gabriela era, em grande parte, uma vítima do contágio psicológico. Em uma camada ainda mais profunda, uma psiquiatra que tratou as irmãs no Hospital Moyano levantou uma hipótese chocante, afirmando que a raiz do delírio místico poderia estar ligada a "reminiscências de algum abuso sexual por parte do pai para com a maior das irmãs", sugerindo que "o demônio é o incesto". Essa teoria, mesmo que não tenha sido a base da sentença, adicionou uma complexidade perturbadora ao caso, sugerindo uma causa psicológica profunda para a tragédia que a narrativa simplista da mídia jamais poderia capturar.

Matéria do jornal da época noticiando que as irmãs foram declaradas inimputáveis.

O rótulo: a criminologia midiática e a criação de um mito

Quase tão chocante quanto o crime em si foi a forma como ele foi coberto pela mídia argentina. O apelido "Las Hermanas Satánicas" , cunhado rapidamente pelos jornais e noticiários, transformou uma complexa tragédia de saúde mental em um conto de horror sensacionalista. A imprensa, movida pelo clamor público e pelo desejo de audiência, focou nos elementos "rituais" e "místicos" da cena do crime, como os livros de magia negra, as velas e as frases delirantes gritadas pelas irmãs. Ao fazer isso, a narrativa midiática ignorou completamente a complexidade do diagnóstico psiquiátrico e o contexto familiar, que indicavam que o crime era resultado de uma doença, e não de uma crença satânica.  

O caso de Silvina e Gabriela Vázquez se tornou um exemplo perfeito de "criminologia midiática" , onde a imprensa atua não apenas como um observador, mas como um criador de narrativas que distorcem a realidade para se tornarem mais palatáveis ao público. Ao invés de educar sobre a esquizofrenia e a folie à trois, os veículos de comunicação optaram por uma história de mal sobrenatural, mais fácil de ser entendida e, crucialmente, mais lucrativa. Essa cobertura irresponsável criou um estigma duradouro para as irmãs e para qualquer um que sofresse de doença mental, reforçando a ideia de que transtornos psiquiátricos graves são sinônimos de possessão ou maldade. O público, influenciado por essa narrativa, chegou a visitar a casa do crime com terços pendurados no pescoço, como se o local estivesse amaldiçoado. O caso, que deveria ter sido um alerta sobre a importância do tratamento psiquiátrico, se tornou uma lenda urbana, um conto de terror para ser contado e repetido, desprovido de sua verdadeira profundidade e da dor humana que o motivou.  

Onde estão hoje?

Duas décadas após o crime, pouco se sabe publicamente sobre Silvina e Gabriela Vázquez. Elas nunca mais tiveram contato entre si e vivem vidas separadas. Sabe-se apenas que, após a alta hospitalar, cada uma seguiu seu caminho: a irmã mais velha, Gabriela, relatou ter tido um filho anos depois; já Silvina retomou os estudos de Economia na universidade. Ambas permanecem “em liberdade”, longe dos holofotes. Em 2025, numa reportagem de 25 anos do caso, fontes oficiais confirmaram que o processo está arquivado e o episódio é considerado encerrado. A casa onde tudo aconteceu ainda existe no bairro de Saavedra, mas tornou-se sinônimo de lenda urbana – nunca mais foi alugada desde o crime.

Especialistas ouvidos pela imprensa dizem que, apesar de toda a parafernália macabra, não houve grupo satânico verdadeiro envolvido. O pesquisador Pablo Semán, do CONICET, ressalta que o caso foi “o estouro de uma configuração familiar”: era mais relevante o estado psicológico das irmãs e a forte ligação delas com o pai do que influência de qualquer seita. Em outras palavras, a maioria dos investigadores crê hoje que Silvina e Gabriela reagiram a traumas familiares (como a morte da mãe) com um distúrbio psiquiátrico severo e que o “ritual satânico” foi um delírio coletivo individual das duas.

Uma tragédia humana, não um conto satânico

A história de Silvina e Gabriela Vázquez é um lembrete vívido de que a realidade humana, por vezes, é mais complexa e aterrorizante do que qualquer lenda. O crime de Saavedra não foi um ato de maldade satânica, mas a manifestação final de um delírio compartilhado, alimentado por um luto não processado, o isolamento social e uma doença mental não tratada. O rótulo "as irmãs satânicas" foi uma criação da mídia que, em sua busca por sensacionalismo, ofuscou a complexidade e a profundidade de uma tragédia familiar.

O caso é um estudo de caso sombrio sobre a fragilidade da mente humana e as consequências devastadoras do estigma e da falta de tratamento para doenças mentais graves. A "purificação" que a família buscava não era contra um demônio externo, mas contra um demônio interno, uma esquizofrenia que lentamente corroeu sua percepção da realidade. O verdadeiro horror não está no ocultismo, mas no quão profundamente um delírio pode se enraizar em uma família, transformando o amor e o cuidado em um ato de violência inimaginável. As irmãs Vázquez, hoje anônimas, carregam consigo não apenas a memória do crime, mas também o fardo de um estigma público que continua a distorcer sua história, servindo como uma advertência sobre os perigos de se confundir patologia com maldade.